"Chupetinha": A história da foto

Cheguei na Praça da Sé para cobrir a movimentação dos meninos naquela manhã de outubro de 1992. Dia 29, antevéspera de finados. O clima era dos mais tensos. Uma semana antes ocorrera uma grande fuga de uma das unidades da FEBEM e um bom número dos garotos fugitivos havia se refugiado ali na praça, tradicional ponto de concentração de garotos de rua.

No dia anterior eu estivera no local para a mesma cobertura. Não me lembro bem porque mas, de repente, eles se revoltaram com a presença da imprensa e vieram pra cima, como uma horda, atirando pedras e nos xingando. O clima esquentou. Fomos escorraçados. Saí de lá fugido e amedrontado, de carona em uma viatura de reportagem da TV Cultura. Eu era inexperiente e, apavorado, não fiz nenhuma foto.

Levei uma tremenda dura do editor, na ocasião o Carlos Feneriche. Como havia acontecido tudo aquilo e eu não tinha feito nenhuma foto? Fiquei muito mal. Eu tentava me firmar na profissão e havia perdido uma grande chance.
No dia seguinte, o mesmo Feneriche me mandou novamente para a praça, cheio de recomendações: "Vê se desta vez traz foto!"

Toda a imprensa estava no local: rádios, TVs, jornais. Os meninos se dividiam em grupos. Vi um pequeno grupo descendo pela rua lateral à catedral da Sé. Fiz umas fotos. "Seo" Bruno, o motorista que me levara, sempre solícito, se ofereceu para me acompanhar e carregava a minha lente 300mm. Foi ele que chegou e me disse: "Você viu aquele menininho de chupeta na boca, fumando um cigarro?" Fiquei alerta. "Nossa, Brunão, não vi, mas deveria ter visto! Cadê?" Ele me apontou o garoto no meio de um grupo que cheirava cola e ria alto. Cheguei fotografando. O "Chupetinha" – assim  chamado pelos outros do grupo – me encarou e caminhando no meu rumo, tirando a chupeta da boca, disse, assim mesmo, textualmente, com vozinha de criança: "Se me filmá eu, vô quebrá essa porra, tá ligado, seu cuzão!"

Foi demais! Fiquei perplexo com aquela criança, pouco mais que um bebê, de chupeta, me falando aquilo. Imaginei o cara com 13, 14 anos, com um "tresoitão" na cintura, turbinado de droga e ódio ... Me aproximei e disse que não sabia que ele não queria ser fotografado e que não faria mais fotos dele, se ele  não quisesse. Passei a mão em sua cabeça. Senti que ele baixou a guarda. Eles são todos muito carentes.
Me lembro que havia uma menina que ficava  sempre com ele, fazia carinho, pegava no colo, protegia. Era meio mãe, irmã mais velha. Fiquei na minha e continuei fotografando os outros meninos, sem perdê-lo de vista.
Fui me enturmando com a galera. Era um tal de "aí, tio me filma eu aqui; aí senhor, filma agora". Pegavam o saco com cola e ficavam inalando. Geralmente usavam um saco cor-de-rosa, de pipoca doce que eles compravam ou ganhavam.

Jogavam a pipoca fora para colocar a cola dentro e inalavam. Ficavam chapadões, falando coisas ... Lembro de um que se chamava Vanderlei, o "Vandeco", que mergulhava na fonte só de cueca e ficava fazendo pose de fortão, tipo mister universo, com olhos vidrados.

Uns diziam para não fotografar que senão alguém, pai, mãe, parente,  poderia vê-lo e ia querer buscá-lo, outro dizia que podia, que ninguém ligava mesmo.



Só história triste: o pai que matou a mãe, que estuprou a irmã, que só vive bêbado, que não tem emprego, que morreu matado. A mãe que fica o dia todo fora, que fugiu pra longe, que vive drogada, que apanha do pai, que só vive bêbado ... essas coisas...A família que não há, o amor que nunca existiu. Aquela tristeza toda ...

Mas ali, entre eles, era só bom humor, só “zoeira”, o carinho, a segurança, a proximidade, a confiança dos amigos, dos “bróders”, dos “manos”.Os  “trutas”. Fui ganhando terreno com o grupo, de olho no Chupetinha, o caçula do grupo. E também o mais arredio.

O fato já estava se esgotando, poucos repórteres permaneciam no local. Eu estava sentado no banco, ouvindo as histórias, conversando. Os meninos ali, em sua carência, pegando, encostando, querendo olhar pelo visor da câmera, fazer foto. E eu permitia, segurava  a câmera para eles poderem ver. Coloquei a lente 300mm e fui fazendo umas fotos de longe já que o Chupetinha estava mais relaxado. Foi aí que ele chegou, cigarro e chupeta na boca, e disse o que eu esperava: “Então filma eu aí, Senhor”.

Tive meu momento: ele chegou muito perto, fazendo pose. Coloquei  a 180mm, pedi pra ele se afastar um pouco, para dar foco. Ele se afastou, quadro cheio, câmera na vertical, sentado, como estava. Ele fumava, eu perguntei da chupeta. Pôs a chupeta e ficava posando, tentando fumar... Fiz minha sequência de clics mais feliz.

No momento em que fiz a foto, não tive consciência da sua importância. No dia seguinte,  ao descer do ônibus, chegando para mais um dia de trabalho no prédio do Estadão, vi o Jornal da Tarde exposto na banca, com a foto escancarada, primeira página inteira. Que emoção! No embalo daquele sentimento, entendi o que as pessoas sentiriam : aquele menino parecia meu filho, como poderia parecer o filho de qualquer um que olhasse para aquela foto.

A repercussão foi grandiosa e suscitou um amplo debate sobre a condição da infância no Brasil. Distribuida pela Agência Estado, a foto correu o mundo, foi publicada em vários livros e até hoje encontro pessoas que  se lembram de mim como o autor da “foto do chupetinha”.

Como fotojornalista, fico orgulhoso por ter registrado uma imagem que tocou o coração das pessoas, além de suas consciências. E suscitou um questionamento em torno de um tema social tão delicado. E, se não trouxe a solução, gerou um debate que acordou a sociedade para o problema. Esse é o objetivo primeiro de quem se deixa seduzir pelo ofício do jornalismo. Por isso, tive a felicidade da gratificação profissional plena, na realização desta foto.

P.S – Anos mais tarde, no final dos anos 90, tentei encontrar o menino da Chupeta. Ampliei umas fotos, levei na Pastoral da Sé, mas não tive sucesso. A assistente social me informou que depois da  chegada do crack, o trabalho social que faziam com os meninos se perdeu.
E eles simplesmente foram sumindo...

C